A lei do Vox para acabar com o arraigo. E é justamente por isso que você deveria se preocupar

Existe uma ideia circulando entre quem pensa em imigrar para a Espanha: “Vou entrar agora e pedir o arraigo antes que a lei mude.” Ela parece esperta. É, na verdade, uma das apostas mais caras e mais frágeis que um imigrante pode fazer.

Nesta segunda-feira, 5 de outubro de 2026, o presidente Pedro Sánchez anunciou a dissolução das Cortes e eleições gerais para 29 de novembro. A decisão veio três dias depois de o Congresso derrubar os dois decretos de moradia do governo, com votos de PP, Vox e Junts (tema do nosso artigo sobre a crise imobiliária). As pesquisas apontam que PP e Vox podem somar maioria absoluta.

Neste artigo informativo, você vai ver o que realmente aconteceu com a proposta do Vox contra o arraigo, o que PP e Vox defendem hoje, o que pode mudar para quem já está irregular e para quem pretende chegar assim, e o preço em números de viver sem papéis na Espanha.

O que aconteceu: eleições antecipadas e um tabuleiro em aberto

A convocação deve ser publicada no BOE em 6 de outubro, e a votação será no domingo, 29 de novembro. Segundo o próprio Sánchez, o objetivo é que os cidadãos decidam o impasse parlamentar.

O que as pesquisas dizem até agora (e pesquisa não é resultado):

  • Levantamento do Ateneo del Dato para o elDiario.es (feito entre 29 de setembro e 1º de outubro): PP 33,2%, Vox 19,2%, somando 52,4%, contra 37,8% de PSOE, Sumar e Podemos.
  • Projeções de cadeiras do GAD3 e da SocioMétrica dão a PP e Vox 202 e 207 deputados, acima dos 176 necessários para a maioria absoluta.
  • O barômetro de setembro do CIS, órgão público de pesquisa, ainda mantém o PSOE na frente.

Ou seja: o resultado não está decidido, mas o cenário em que PP e Vox governam juntos é plausível, e é isso que muda o debate sobre imigração.

Infográfico com as projeções de voto e cadeiras para as eleições gerais da Espanha em outubro de 2026, destacando os resultados do PP, PSOE e Vox no Congresso dos Deputados

A lei do Vox contra o arraigo: o que realmente aconteceu

Aqui entra o primeiro ponto: A proposta de lei do Vox para restringir a regularização por arraigo já foi derrotada. Em 16 de setembro de 2025, o Congresso rejeitou a proposta (122/000191) por 177 votos contra 169 a favor. O texto tinha como objetivo declarado acabar com essa via de regularização e ampliar expulsões.

O detalhe que muita gente não conhece: o PP votou a favor de levar a proposta adiante, embora tenha criticado partes dela. Foi a soma dos demais partidos que a barrou.

Depois disso:

  • Em fevereiro de 2026, o Vox registrou nova iniciativa pedindo, entre outras coisas, suprimir o arraigo como instrumento jurídico e impedir o empadronamento de pessoas irregulares.
  • Em abril de 2026, o Congresso rejeitou uma moção do Vox que pedia “prioridade nacional” em ajudas públicas e a revogação da regularização extraordinária. Nessa votação, o PP votou contra o texto do Vox, mas apresentou uma emenda própria. Ela ligava a prioridade a um “arraigo real, duradouro e verificável” com o território e reafirmava a oposição do partido à regularização extraordinária.

Agora, com as Cortes dissolvidas, as iniciativas pendentes caducam. Não existe, neste momento, uma lei em tramitação para acabar com o arraigo. O risco migrou do Parlamento para as urnas.

Dica da Via Espanha: Desconfie de notícias do tipo “o arraigo acaba mês que vem”. Hoje ele continua vigente. O que existe é risco político, e risco político se gerencia com informação e planejamento, não com pânico.

Por que a ameaça real é a eleição, e não aquela lei específica

O arraigo está previsto na Lei de Estrangeiros e é detalhado no Regulamento de Estrangeiros (Real Decreto 1155/2024), que é uma norma do próprio governo. Em tese, um novo governo poderia alterar o regulamento sem passar por votação no Parlamento, enquanto mudanças na lei exigem maioria. Por isso o resultado de 29 de novembro importa tanto.

O que os principais atores dizem hoje:

QuemPosição sobre arraigo e regularização
VoxQuer suprimir o arraigo, repatriar quem está irregular, revogar a regularização extraordinária e aplicar “prioridade nacional” em ajudas. Argumenta que o arraigo é uma regularização “encoberta” que gera efeito chamada.
PPRejeita regularizações generalizadas e quer derrogar a regularização extraordinária. Propõe um sistema de pontos individualizado e migração circular para setores como agricultura e construção. Feijóo diz que a “prioridade nacional” se baseia no arraigo, não no passaporte.
PSOE e aliadosDefendem a regularização extraordinária de 2026 e o modelo atual de arraigos.

Críticos, incluindo vários partidos de esquerda e regionalistas, acusam o discurso do Vox de criminalizar o estrangeiro. Quem apoia as restrições fala em ordem, legalidade e pressão sobre serviços públicos. Este artigo não toma partido: o objetivo é mostrar o que pode mudar na prática para quem imigra.

Infográfico de linha do tempo com os principais marcos da situação migratória na Espanha de setembro de 2025 a novembro de 2026, destacando a regularização extraordinária de imigrantes, a derrubada dos decretos de moradia e a convocação de eleições gerais

O que é o arraigo hoje (e o que já se perdeu)

O Regulamento atual prevê cinco modalidades: segunda oportunidade, sociolaboral, social, socioformativo e familiar. Na maioria delas, o requisito central é comprovar dois anos de permanência contínua na Espanha, sem antecedentes criminais. As ausências nesse período não podem passar de 90 dias. O arraigo familiar não exige tempo mínimo.

Pontos práticos:

  • A taxa oficial do procedimento é de cerca de 38 € (modelo 790, código 052), fora tradução, certidões apostiladas e eventual advogado.
  • Só o arraigo sociolaboral permite trabalhar legalmente assim que o pedido é admitido a trâmite. Nas demais modalidades, é preciso esperar a concessão.
  • A regularização extraordinária de 2026 (pedidos de 16 de abril a 30 de junho) já foi encerrada e valia só para quem estava na Espanha antes de 1º de janeiro de 2026. Fontes do governo falaram em mais de 1,2 milhão de pedidos, número ainda a confirmar. PP e Vox querem revogá-la, e uma das grandes incógnitas é o destino dos pedidos ainda em análise.

Lição: a regularização extraordinária mostrou que as “janelas” de regularização abrem e fecham por decisão política. Quem chegou depois da data de corte ficou de fora.

Quem já está irregular: o que fazer nas próximas semanas

Não existe garantia sobre o que vai acontecer, mas existem atitudes prudentes:

  1. Calcule seu tempo. Se você já tem dois anos contínuos, a janela para protocolar é agora. A regra geral é que normas restritivas não retroagem, mas isso depende das disposições transitórias de cada mudança. Falar com um advogado de estrangeiria faz sentido.
  2. Se estiver perto dos dois anos, guarde provas: empadronamento, contratos de aluguel, extratos, consultas médicas, comprovantes de envio de dinheiro, matrículas.
  3. Evite sair do país por mais de 90 dias no período de contagem.
  4. Providencie os antecedentes criminais do Brasil (e de outros países onde morou nos últimos cinco anos), com apostila e tradução.
  5. Fuja de “atalhos”. Contratos de trabalho falsos e empadronamento comprado não apenas anulam o pedido, como podem gerar problemas graves. É o tipo de fraude que os discursos políticos mais exploram.

Dica da Via Espanha: Não se trata de correr para qualquer pedido. Um dossiê incompleto ou mal instruído pode ser negado, e recomeçar custa tempo e dinheiro. Preparo vale mais que pressa.

Quem pretende vir como irregular: o preço em números

Este é o ponto central. A lógica “chego e peço o arraigo” ignora três coisas.

1. O tempo. Para pedir o arraigo, você precisa viver dois anos sem autorização. Durante esse período, não há trabalho legal, contribuição para a Seguridade Social nem proteção trabalhista. E as regras podem mudar no meio do caminho: uma eleição, um decreto, um novo governo.

2. As sanções. A estadia irregular é infração administrativa grave, com multa de 501 a 10.000 €. Em vez da multa, a administração pode decretar expulsão, que implica proibição de entrada no espaço Schengen (que pode chegar a 10 anos em casos excepcionais). Não é crime, mas as consequências são pesadas.

3. O custo de oportunidade. O salário mínimo legal de 2026 é de 1.221 € brutos por mês em 14 pagamentos, ou 17.094 € por ano. Em dois anos, são 34.188 € em renda de referência com direitos, férias e contribuição. Sem papéis, você não tem essas garantias. É também um motivo de vulnerabilidade a abusos de empregadores.

ItemValor / prazo
Tempo mínimo sem autorização para pedir o arraigo2 anos contínuos
Taxa do pedido de arraigo~38 €
Multa por estadia irregular501 a 10.000 €
Proibição de entrada em caso de expulsãoPode chegar a 10 anos (casos excepcionais)
Salário mínimo anual de referência em 202617.094 € brutos
Dois anos de salário mínimo (renda que se deixa de ter com direitos)34.188 € brutos

Valores oficiais e estimativas de referência. Cada caso é analisado individualmente.

E o risco político não aparece na tabela: se você entra hoje, o relógio de dois anos termina em outubro de 2028. Você apostaria dois anos da sua vida nas regras que vão valer só depois de duas eleições?

Infográfico da Via Espanha explicando o custo de esperar pelo arraigo. Detalha a exigência de 2 anos contínuos, multas de 501 a 10.000 euros por estadia irregular, proibição de entrada por até 10 anos em caso de expulsão, a perda de mais de 34 mil euros em salários (referência 2026) e o risco político de aguardar até outubro de 2028 no cenário de eleições.

Alternativas legais: mais baratas do que parecem

Os caminhos legais costumam ser menos arriscados que dois anos na irregularidade, mesmo exigindo planejamento. Dependendo do seu perfil, vale avaliar:

  • Visto de estudante (com possibilidade de trabalhar em horas limitadas e transição posterior)
  • Visto de nômade digital, se você trabalha remotamente para o exterior (a renda mínima é indexada ao salário mínimo, então confira o valor vigente)
  • Residência por trabalho qualificado ou contratação em origem, se há oferta de emprego
  • Reagrupamento familiar ou residência por vínculo com cidadão espanhol ou residente

Cada via tem requisitos, prazos e riscos próprios, e podem sofrer ajustes após a eleição. Por isso a análise individual é essencial.

Conclusão / Próximos passos

A lei do Vox contra o arraigo já foi derrotada, mas a eleição de 29 de novembro pode redefinir a política migratória espanhola. Para quem já está na Espanha sem papéis, o momento pede organização e orientação profissional. Para quem planeja imigrar, a mensagem é simples: não aposte dois anos da sua vida em regras que podem mudar.

Este conteúdo é informativo e não substitui assessoria jurídica individual. As normas de imigração podem mudar após as eleições. Informações atualizadas até 5 de outubro de 2026.

Fontes consultadas

La Moncloa, El País, elEconomista e Moncloa.com (convocação das eleições); elDiario.es, Ateneo del Dato, GAD3, SocioMétrica e CIS (pesquisas); Congresso dos Deputados (proposição de lei 122/000191) e elDiario.es (votação de setembro de 2025); Vox (iniciativa de fevereiro de 2026); Infobae, COPE e El Independiente (moção de abril de 2026 e posições do PP); Ministério da Inclusão, CEAR e Euronews (regularização extraordinária de 2026); portais jurídicos (arraigos do Real Decreto 1155/2024, taxa 052 e sanções da Lei Orgânica 4/2000); Real Decreto 126/2026 (salário mínimo).